Mediante estas belas mentiras...

digo sempre o que tenho de verdade.

20.4.07

Caminho Fácil



















Não quero ouvir mais as palavras tuas
Me cansam, me doem
Esqueces o que é leveza, pesas sobre mim

Não quero ver mais as caras tuas
Me cobram, me aviltam
Fazes de mim o que eu não quero ser

Mas caminharei
Tão leve como nunca foste
Leve como nunca pudeste

Caminharei
Quase como se não existíssemos
Tu, que nunca ficaste
Eu, que nunca partira

8.4.07

Sobre Os Dias Que Nos Foram Roubados

É o silêncio desta tarde quente
Que me faz ouvir a música das folhas que caem,
Que vão caindo porque já é outono.

E eu só lembro de você porque você sempre cai em mim,
E eu só lembro de você porque você está sempre comigo,
Está ligado a quase um terço das coisas que eu penso,
Está dentro do meu estojo, dentro do bolso da minha bermuda,
Está dobrado e guardado pra poder caber em mim.

...Eu não queria falar em saudade.

14.2.07

Poesia Paralisante de Sentido

"Não fosse isto
E era menos
Não fosse tanto

E era quase"

(Paulo Leminski)















Você pára por um tempo, vem um silêncio te abraçar.
Você fecha os olhos, respira fundo.

Quando abre os olhos novamente, ainda pode ver as cores correndo de volta para aquilo que lhes dá forma.


(post provocado inteiramente por Myriam Kazue, minha veterana querida de Letras da FFLCH/USP, que me mostrou este belíssimo pedaço da obra de Paulo Leminski.)

8.1.07

Teu Aniversário















Como eu queria que hoje fosse teu aniversário. Eu te ligaria bem cedo, e você atenderia rouca, com a voz preguiçosa de quem acabou de acordar, de quem pede para dormir por apenas mais cinco minutos.
Que vontade quase inexplicável eu sinto agora de cantar-te os parabéns e desejar felicidades nesta data tão querida que não é hoje, e, no entanto, eu queria muito que fosse.
Talvez repentina saudade da tua voz, do nosso tempo que foi, saudade de ti, a quem amei devotamente. Apenas ao pensar que é saudade consigo entender este meu desejo súbito e tão intenso de te sentir feliz, de te sentir risonha e desajeitada ao agradecer-me docemente o carinho, a lembrança deste dia que sei, não é hoje, mas que eu daria tudo para que fosse.

20.12.06

Apenas A Boca











Ela demorou bastante tempo até me receber. Fiquei na sala esperando, lendo uma revista. Era a Veja, e por incrível que pareça, dei considerável atenção às matérias daquela edição, uma delas inclusive falando sobre Fernando Gabeira. Vale dizer que, embora adotem modelo nada louvável de jornalismo e carreguem um invejável histórico pouco positivo, de vez em quando eles acertam. Eu acabara a leitura sobre o caso da morte do Coronel Ubiratan dos 111 - vale dizer da minha surpresa ao descobrir que a maior parte dos crimes passionais é executada por homens - e partia para a seção de saúde que trazia informações sobre alimentação quando ela apareceu. Disse que estava preparando tudo. Antes que eu a visse, sumiu novamente e, instantes após, pediu para que eu entrasse.

Sentei naquela cadeira que tanto gosto, e ela caminhava de um lado a outro, observando ao redor, querendo ter a certeza de que não estava faltando nada. Deixara o telefone insistente aos cuidados da caixa postal e iniciou alguma conversa para quebrar o gelo. Pediu desculpas pela demora, perguntou das férias, da vida. Ela me olhava sério e bem nos olhos - coisa que me incomoda bastante -, como não fosse capaz de sorrir, mas logo contrariava a própria aparência e sorria. Sentou ao meu lado e disse, tranqüila: "Vamos lá?". Vamos, Vamos. Já houvera me dado um líquido num copinho descartável e um guardanapo que mantive na mão esquerda até ir embora. Suas mãos tão lisas, ela tocou meus lábios e pediu para que eu abrisse minha boca. Seu olhar clínico, atencioso e profundo, ela disse depois que eu estava me cuidando bem, mas que não poderia relaxar. Ela algumas vezes levantava, procurando por algo, achava e voltava rápido. Quando ao meu lado, mantinha-se muito concentrada. Era intimamente prazeroso olhar nos seus olhos quando ela olhava a minha boca. Praticamente não tirava os olhos dela. Passou vaselina ao redor, disse que era para não machucar. Papel, plástico, metal, substâncias químicas. Líquidos, pastas. Água, muita água. Por vezes eu fiquei todo molhado, e ela delicadamente me secava. Tendo todo o cuidado de ser pouco cruel, ela se utilizava de muitos artifícios para me manter ali, submetido àquela espécie de tortura. Em alguns momentos, eu ficava todo arrepiado, mas continha qualquer impulso, e permanecia em silêncio. Ela sempre pedia para que eu segurasse, ora com firmeza, ora apenas suportando tudo aquilo o que ela tinha e usava em mim. A boca, às vezes eu precisava abrir bem. Em outros momentos, ela pedia que eu fechasse, pouco a pouco, e desta forma controlava todas as medidas e posições. Não demorou muito para que eu sentisse dor. E quanto sangue eu tive de cuspir. Água, muita água. Água e sangue, e ela delicadamente me limpava e secava.

Já havia se passado bastante tempo e muita água quando ela finalizou aquele trabalho tão minucioso, paciente, preciso. Explicou o porquê de ter sangrado tanto. Eu pude compreender, mas de todo modo é doloroso e incômodo. Ela recomendou que eu continuasse a me cuidar, e que não tivesse medo do fio dental. "Sabendo usar, não machuca e é fundamental". Paguei com cheque, ela me deu um recibo. Desejou-me boas festas de final de ano e sorte no vestibular. "Até a próxima", disse sorrindo. Simpática, acompanhou-me até a porta. Deu-me uma escova de presente. Considero-a muito boa profissional. É verdade que passar por isso é doloroso, mas reconheço a necessidade e, afinal, faço isto apenas uma vez por ano.

12.5.06

Autumn Leaves













"Quanto mais palavras ocorrem para vestir uma idéia, mais essa idéia resiste a ser identificada. As sucessivas roupas sufocam a sua nudez. E todas as palavras são uma grande bolha de sabão, às vezes brilhante, mas cincundando o vazio. Ah, se eu pudesse escrever com os olhos, com as mãos, com os cabelos - com todos esses arrepios estranhos que um entardecer de outono, como o de hoje, provoca na gente."

(Caio Fernando Abreu. Limite Branco, romance, capítulo XIX, 'Diário IX', página 137, 1º parágrafo).

21.2.06

But The Eyes...

Não me pergunta mais porque que eu tanto te olho...
Contente-se com a justificativa de que te olho porque você é linda.

Ficarei te olhando até você me entender sem eu precisar dizer nada,
Sem que eu precise responder às perguntas que você me faz.

Eu também te olho muito é porque você é linda, mesmo.
Até prefiro olhar pra ti do que ficar olhando pras estrelas...
Elas jamais seriam capazes de me sorrir como você. Meu amor.