13.8.07
Então Conta-Me o Teu Sofrer
Dias tão nublados, chuvas sempre ácidas
De folhas e folhas que caem sempre secas
De pétalas e pétalas já desvanecidas
Esses assassinatos, essas amputações
Esse diário banquete de cadáveres
Esse estrondo de absurdos
Esse silêncio de tudo o que nos resta
Essas vozes que não cantam mais a vida
Essa enxurrada de mentiras canônicas
Essa aventura tão cara de frustrar-se
Essa velocidade de perder todas as cores
Esses amores rudes, tão frios e tão frívolos
Esse medo tolo de estender as mãos
Esse modo triste de abrir os braços
E receber o mundo que se acaba num abraço
21.5.07
Aquilo Que É Recôndito
Converso
Se tenho um desejo
Versejo
Quero o que é o inverso
Não vejo
Problema nenhum em querer
Você
O que é segredo
Não conto
Quando sinto medo
Disfarço
Passeio sozinho
Transpasso
Vou longe ao pensar e pensar
Em você
Tristeza vem quando
Não quero
Mas desfaço sem
Desespero
Um sorriso quase
Sincero
Que tantas vezes já sorri
Pra você
O silêncio é bom
Companheiro
E eu que sempre fui
Solitário
Guardo dentro de um
Relicário
O amor que sonhei viver
Com você
20.4.07
Caminho Fácil
Não quero ouvir mais as palavras tuas
Me cansam, me doem
Esqueces o que é leveza, pesas sobre mim
Não quero ver mais as caras tuas
Me cobram, me aviltam
Fazes de mim o que eu não quero ser
Mas caminharei
Tão leve como nunca foste
Leve como nunca pudeste
Caminharei
Quase como se não existíssemos
Tu, que nunca ficaste
Eu, que nunca partira
8.4.07
Sobre Os Dias Que Nos Foram Roubados
Que me faz ouvir a música das folhas que caem,
Que vão caindo porque já é outono.
E eu só lembro de você porque você sempre cai em mim,
E eu só lembro de você porque você está sempre comigo,
Está ligado a quase um terço das coisas que eu penso,
Está dentro do meu estojo, dentro do bolso da minha bermuda,
Está dobrado e guardado pra poder caber em mim.
...Eu não queria falar em saudade.
14.2.07
Poesia Paralisante de Sentido
E era menos
Não fosse tanto
E era quase"
(Paulo Leminski)
Você pára por um tempo, vem um silêncio te abraçar.
Você fecha os olhos, respira fundo.
Quando abre os olhos novamente, ainda pode ver as cores correndo de volta para aquilo que lhes dá forma.
(post provocado inteiramente por Myriam Kazue, minha veterana querida de Letras da FFLCH/USP, que me mostrou este belíssimo pedaço da obra de Paulo Leminski.)
8.1.07
Teu Aniversário
Como eu queria que hoje fosse teu aniversário. Eu te ligaria bem cedo, e você atenderia rouca, com a voz preguiçosa de quem acabou de acordar, de quem pede para dormir por apenas mais cinco minutos.
Que vontade quase inexplicável eu sinto agora de cantar-te os parabéns e desejar felicidades nesta data tão querida que não é hoje, e, no entanto, eu queria muito que fosse.
Talvez repentina saudade da tua voz, do nosso tempo que foi, saudade de ti, a quem amei devotamente. Apenas ao pensar que é saudade consigo entender este meu desejo súbito e tão intenso de te sentir feliz, de te sentir risonha e desajeitada ao agradecer-me docemente o carinho, a lembrança deste dia que sei, não é hoje, mas que eu daria tudo para que fosse.
20.12.06
Apenas A Boca

Ela demorou bastante tempo até me receber. Fiquei na sala esperando, lendo uma revista. Era a Veja, e por incrível que pareça, dei considerável atenção às matérias daquela edição, uma delas inclusive falando sobre Fernando Gabeira. Vale dizer que, embora adotem modelo nada louvável de jornalismo e carreguem um invejável histórico pouco positivo, de vez em quando eles acertam. Eu acabara a leitura sobre o caso da morte do Coronel Ubiratan dos 111 - vale dizer da minha surpresa ao descobrir que a maior parte dos crimes passionais é executada por homens - e partia para a seção de saúde que trazia informações sobre alimentação quando ela apareceu. Disse que estava preparando tudo. Antes que eu a visse, sumiu novamente e, instantes após, pediu para que eu entrasse.
Sentei naquela cadeira que tanto gosto, e ela caminhava de um lado a outro, observando ao redor, querendo ter a certeza de que não estava faltando nada. Deixara o telefone insistente aos cuidados da caixa postal e iniciou alguma conversa para quebrar o gelo. Pediu desculpas pela demora, perguntou das férias, da vida. Ela me olhava sério e bem nos olhos - coisa que me incomoda bastante -, como não fosse capaz de sorrir, mas logo contrariava a própria aparência e sorria. Sentou ao meu lado e disse, tranqüila: "Vamos lá?". Vamos, Vamos. Já houvera me dado um líquido num copinho descartável e um guardanapo que mantive na mão esquerda até ir embora. Suas mãos tão lisas, ela tocou meus lábios e pediu para que eu abrisse minha boca. Seu olhar clínico, atencioso e profundo, ela disse depois que eu estava me cuidando bem, mas que não poderia relaxar. Ela algumas vezes levantava, procurando por algo, achava e voltava rápido. Quando ao meu lado, mantinha-se muito concentrada. Era intimamente prazeroso olhar nos seus olhos quando ela olhava a minha boca. Praticamente não tirava os olhos dela. Passou vaselina ao redor, disse que era para não machucar. Papel, plástico, metal, substâncias químicas. Líquidos, pastas. Água, muita água. Por vezes eu fiquei todo molhado, e ela delicadamente me secava. Tendo todo o cuidado de ser pouco cruel, ela se utilizava de muitos artifícios para me manter ali, submetido àquela espécie de tortura. Em alguns momentos, eu ficava todo arrepiado, mas continha qualquer impulso, e permanecia em silêncio. Ela sempre pedia para que eu segurasse, ora com firmeza, ora apenas suportando tudo aquilo o que ela tinha e usava em mim. A boca, às vezes eu precisava abrir bem. Em outros momentos, ela pedia que eu fechasse, pouco a pouco, e desta forma controlava todas as medidas e posições. Não demorou muito para que eu sentisse dor. E quanto sangue eu tive de cuspir. Água, muita água. Água e sangue, e ela delicadamente me limpava e secava.
Já havia se passado bastante tempo e muita água quando ela finalizou aquele trabalho tão minucioso, paciente, preciso. Explicou o porquê de ter sangrado tanto. Eu pude compreender, mas de todo modo é doloroso e incômodo. Ela recomendou que eu continuasse a me cuidar, e que não tivesse medo do fio dental. "Sabendo usar, não machuca e é fundamental". Paguei com cheque, ela me deu um recibo. Desejou-me boas festas de final de ano e sorte no vestibular. "Até a próxima", disse sorrindo. Simpática, acompanhou-me até a porta. Deu-me uma escova de presente. Considero-a muito boa profissional. É verdade que passar por isso é doloroso, mas reconheço a necessidade e, afinal, faço isto apenas uma vez por ano.