Mediante estas belas mentiras...

digo sempre o que tenho de verdade.

20.12.06

Apenas A Boca











Ela demorou bastante tempo até me receber. Fiquei na sala esperando, lendo uma revista. Era a Veja, e por incrível que pareça, dei considerável atenção às matérias daquela edição, uma delas inclusive falando sobre Fernando Gabeira. Vale dizer que, embora adotem modelo nada louvável de jornalismo e carreguem um invejável histórico pouco positivo, de vez em quando eles acertam. Eu acabara a leitura sobre o caso da morte do Coronel Ubiratan dos 111 - vale dizer da minha surpresa ao descobrir que a maior parte dos crimes passionais é executada por homens - e partia para a seção de saúde que trazia informações sobre alimentação quando ela apareceu. Disse que estava preparando tudo. Antes que eu a visse, sumiu novamente e, instantes após, pediu para que eu entrasse.

Sentei naquela cadeira que tanto gosto, e ela caminhava de um lado a outro, observando ao redor, querendo ter a certeza de que não estava faltando nada. Deixara o telefone insistente aos cuidados da caixa postal e iniciou alguma conversa para quebrar o gelo. Pediu desculpas pela demora, perguntou das férias, da vida. Ela me olhava sério e bem nos olhos - coisa que me incomoda bastante -, como não fosse capaz de sorrir, mas logo contrariava a própria aparência e sorria. Sentou ao meu lado e disse, tranqüila: "Vamos lá?". Vamos, Vamos. Já houvera me dado um líquido num copinho descartável e um guardanapo que mantive na mão esquerda até ir embora. Suas mãos tão lisas, ela tocou meus lábios e pediu para que eu abrisse minha boca. Seu olhar clínico, atencioso e profundo, ela disse depois que eu estava me cuidando bem, mas que não poderia relaxar. Ela algumas vezes levantava, procurando por algo, achava e voltava rápido. Quando ao meu lado, mantinha-se muito concentrada. Era intimamente prazeroso olhar nos seus olhos quando ela olhava a minha boca. Praticamente não tirava os olhos dela. Passou vaselina ao redor, disse que era para não machucar. Papel, plástico, metal, substâncias químicas. Líquidos, pastas. Água, muita água. Por vezes eu fiquei todo molhado, e ela delicadamente me secava. Tendo todo o cuidado de ser pouco cruel, ela se utilizava de muitos artifícios para me manter ali, submetido àquela espécie de tortura. Em alguns momentos, eu ficava todo arrepiado, mas continha qualquer impulso, e permanecia em silêncio. Ela sempre pedia para que eu segurasse, ora com firmeza, ora apenas suportando tudo aquilo o que ela tinha e usava em mim. A boca, às vezes eu precisava abrir bem. Em outros momentos, ela pedia que eu fechasse, pouco a pouco, e desta forma controlava todas as medidas e posições. Não demorou muito para que eu sentisse dor. E quanto sangue eu tive de cuspir. Água, muita água. Água e sangue, e ela delicadamente me limpava e secava.

Já havia se passado bastante tempo e muita água quando ela finalizou aquele trabalho tão minucioso, paciente, preciso. Explicou o porquê de ter sangrado tanto. Eu pude compreender, mas de todo modo é doloroso e incômodo. Ela recomendou que eu continuasse a me cuidar, e que não tivesse medo do fio dental. "Sabendo usar, não machuca e é fundamental". Paguei com cheque, ela me deu um recibo. Desejou-me boas festas de final de ano e sorte no vestibular. "Até a próxima", disse sorrindo. Simpática, acompanhou-me até a porta. Deu-me uma escova de presente. Considero-a muito boa profissional. É verdade que passar por isso é doloroso, mas reconheço a necessidade e, afinal, faço isto apenas uma vez por ano.

12.5.06

Autumn Leaves













"Quanto mais palavras ocorrem para vestir uma idéia, mais essa idéia resiste a ser identificada. As sucessivas roupas sufocam a sua nudez. E todas as palavras são uma grande bolha de sabão, às vezes brilhante, mas cincundando o vazio. Ah, se eu pudesse escrever com os olhos, com as mãos, com os cabelos - com todos esses arrepios estranhos que um entardecer de outono, como o de hoje, provoca na gente."

(Caio Fernando Abreu. Limite Branco, romance, capítulo XIX, 'Diário IX', página 137, 1º parágrafo).

21.2.06

But The Eyes...

Não me pergunta mais porque que eu tanto te olho...
Contente-se com a justificativa de que te olho porque você é linda.

Ficarei te olhando até você me entender sem eu precisar dizer nada,
Sem que eu precise responder às perguntas que você me faz.

Eu também te olho muito é porque você é linda, mesmo.
Até prefiro olhar pra ti do que ficar olhando pras estrelas...
Elas jamais seriam capazes de me sorrir como você. Meu amor.

29.1.06

Ficção de Amor Do Acaso e Orkutismo
















Ele já não queria maiores explicações.
Quando acessou a página principal do Orkut e começou a olhar seu profile, leu de imediato o lembrete "Sorte de hoje", que de quando em quando surge para aconselhar os usuários do profícuo site. E lá dizia: "Pare de procurar eternamente; a felicidade está bem ao seu lado".
Até parecia clichê. Um clichê velho, incômodo, besta. Mas coisas semelhantes começavam a pular na tela: os nicks do MSN, todos com suas frases provérbicas, manifestando aquele mesmo sentimento de que "a felicidade está do nosso lado e nós, sempre querendo mais e mais, vemos tão distante mas não conseguimos dar atenção e importância àquilo que está tão presente e tão próximo de nós mesmos".
Ele já estava puto. Ia desligar tudo. Fechar as janelas todas não resolveria. Somente ao apertar todos os botões, ver tudo em off, ele teria sossego.
Não adiantou. A máquina fez silêncio total - ela toda desligada. E ele decidiu dar uma volta, ir até a banca de jornais. Havia cancelado a assinatura do jornal, pois alguns imprevistos previsíveis na fatura do cartão obrigaram-no a cortar despesas.
Chegando à banca, aquela mesma mocinha de sempre que o atendia e anunciava os preços de tudo, com o mesmo sorriso e a mesma educação, deu-lhe um "bom dia" animado. No rádio, a música de Nando Reis dizia tudo o que ele não queria mais ouvir: "Seu amor pode estar do seu lado...". Tudo conspirava a seu favor. Era demais, ser tudo coincidência, ou uma grande bobagem.
Na hora, ele não teve dúvida alguma. Pegou a moça de jeito, quando ela voltava com o jornal nas mãos e as moedas do troco. A mocinha, atônita, de olhos arregalados, ameaçou até cobrar explicações, perguntar o que estava acontecendo ali, quando ele lhe deu um longo beijo.
Ruborizada e um pouco trêmula, depois de tudo aquilo, reagiu imadiatamente entregando-lhe o jornal, e até tentou falar qualquer coisa, quando ele antecipou-se e disse, todo sem-graça e com pressa: "Pode ficar com o troco". Olhou dos lados, tentando arrumar a camisa quase nada amarrotada, e, sem saber para onde ir, foi embora, desengonçadamente. Talvez fosse até a floricultura.

10.1.06

Novos Olhares: O Incômodo

A moça grita. Anuncia, comunica, intima, convida, conclama a massa em filas para a sua lotação vazia e que sai em breve, com certeza antes que os ônibus aguardados pelas filas da massa.

Pessoas ásperas acompanham com os olhos a aproximação da senhora que pede esmola porque é doente, porque precisa de remédio, porque precisa viver e viver sem dinheiro não dá.

O senhor que vende 'as gostosas balinhas de goma' também vem.
E vai, e volta. Tenta vencer pelo charme e pelo cansaço.

O menino dos chocolates aguarda os coletivos paralelo às filas. O seu itinerário comercial é onboard. Ele faz baldeações pelo caminho. Pessoas ficarão até contentes com sua presença anunciada, repleta de "por favor, pessoal", "obrigado, boa viagem a todos " e "deus abençoe". É a maneira mais digna que o menino encontrou para manter o sustento de sua família. Ele vai descer daqui dois pontos seguintes, pelos quais passará o primeiro ônibus que chegou e levou parte da massa que a moça que grita não conseguiu atrair.

As filas da massa crescem. A massa é dispersa. A massa tem rosto, sim. A massa olha ao redor. Ouve os ruídos urbanos. Sente o cheiro de podridão que compõe a crosta de imundície da sarjeta.

Mendigos dormem nos bancos da praça. Crianças selecionam nos sacos de lixo.
Policiais batem papo sobre o futebol de outro dia, ou comentam de pequenas ocorrências.
As moças do fast-food esquecem dos pedidos e do troco.
Um homem perdido vindo do interior pede informação.
Uma mãe estapeia a filha que subia num corrimão.
A garota joga o papel de bala no chão.

As pessoas só se incomodam com o barulho que vou fazendo ao comer pipoca.

-------------------------------------------------------------------------------
Selecionando conceitos de olhares:
"Ruas podem ser lidas como livros, ao menos pelos pedestres."
(Peter Burke)